Estado de Alagoas

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BICO E RENDA SINGELEZA

Água Branca / Marechal Deodoro

Singeleza

Foto: Ricardo Lêdo

 

          O pedido de Registro do Modo de Fazer do Bico e da Renda Singeleza em Alagoas foi encaminhado a Secretaria de Estado da Cultura em 25 de Novembro de 2013 e tem como proponente a arquiteta, pesquisadora e professora Josemary Omena Passos Ferrare, coordenadora do projeto (Re)Bordando o Bico e Renda Singeleza realizado em 2009 com apoio da SECULT e da FUNDEPES.

          O referido projeto consistiu na realização de oficinas para repasse do modo de fazer o Bico e da Renda Singeleza a mulheres, rendeiras e bordadeiras da cidade de Marechal Deodoro, decorrente da observação de que na cidade este saber estava guardado na memória de apenas uma senhora. Dona Marinita, oitenta anos, foi, portanto, personagem central nesse processo de guarda e reprodução desse saber, sobretudo, pelo seu caráter de transmissão geracional e tendo em vista que a artesã não teve filhas. Percebendo a situação de iminente desaparecimento do bico, a equipe do projeto realizou, além da oficina, uma série de outras iniciativas centradas na promoção, divulgação e repasse desse saber. Ações que envolviam desde a produção de estudos de caráter acadêmico, pesquisas em busca da história do bem, reconhecimento a Dona Marinita e divulgação desse bem imaterial de Alagoas.

          Em virtude da idade dessa senhora, única detentora desse saber, a realização dessa oficina como ação de salvaguarda foi o marco inicial desse projeto que, desde 2009, vem buscando complementar a pesquisa, tendo recentemente estabelecido diálogo com a pesquisa junto ao referido bico na cidade de Latrônico na Itália. Vale ressaltar que esse país está pleiteando o reconhecimento do bico e da renda Singeleza, como patrimônio cultural da humanidade junto a UNESCO. 

          O pedido encaminhado a SECULT segue complementado pelo DOSSIÊ SINGELEZA: uma história sobre a preservação de um saber tradicional - Registro do Modo de Fazer o Bico e a Renda Singeleza nas cidades de Marechal Deodoro e Água Branca - AL. Esse dossiê teve por objetivo subsidiar o pedido de registro do Modo de Fazer o Bico e a Renda Singeleza em Alagoas como Patrimônio Cultural Brasileiro, encaminhado ao IPHAN também em 2009. 

          Representante, portanto, da rica tradição alagoana na produção de rendas e bordados, a renda e bico Singeleza, apesar do grande risco de desaparecimento, hoje é expressão viva nas cidades de Marechal Deodoro e Água Branca. Saber - Fazer delicado que, apesar de ter superado a iminência de desaparecimento, ainda conta com poucas artesãs, é produto bastante característico das regiões em que se apresenta e vem conquistando outras aplicações decorrentes da criatividade de suas artesãs. 

          Registrar esse modo de fazer como patrimônio cultural de Alagoas significa valorizar a tradição de Alagoas na produção de bicos, rendas e bordados, o saber das artesãs e toda a tradição que aproxima esse universo de linhas, pontos, criatividade e imaterialidade das tradições da pesca e da confecção de redes. Registrar significa ainda reconhecer a importância de todas as ações de salvaguarda já realizadas junto ao bem, estimulando o repasse desse saber, sua comercialização e valorização. 

 

Características:

 

          O bico singeleza é feito sobre uma trama bastante simples, numa minúscula rede de nós. É tradicionalmente confeccionado com agulha, linha e talos de coqueiro. Não precisa de risco, nem de moldes. A linha é a mais simples, de algodão, usada pelas costureiras. Com ela, a rendeira inicia o trabalho pontilhando em um pedacinho de pano que serve de base. Em seguida, coloca um talo bem fino de palha de coqueiro no sentido horizontal, junto à base do pano e faz a primeira ordem de asas, dando uma laçada no talo com a linha em agulha comum. O curioso é que a artesã puxa a agulha no sentido contrário, isto é, pelo fundo. As ordens de casas vão se repetindo, formando uma malha muito fina. De espaço em espaço, a rendeira preenche cinco dessas casas com uma leve decoração a que chama de rosinha. O ponto não varia. É sempre o mesmo para renda, bico e aplicação.

          O bico compunha as prendas ensinadas às meninas, como parte de sua educação doméstica. Era utilizado para decorar blusas, golas soltas, mas também barras de anáguas, toalhas, lençóis e outras peças. Confeccionado aos metros em Marechal Deodoro, era comercializado em Maceió, de porta em porta ou “a bordo”, como se dizia antigamente. “Rendar singeleza”, isto é, fazer o bico, era uma prática comum entre as mulheres de Marechal Deodoro. Com o passar do tempo, a renda foi caindo em desuso e as rendeiras migraram para o trabalho com o filé, considerado  uma renda mais vistosa e de elaboração mais rápida, que encantava e ainda encanta os compradores. 

          Pela delicadeza da linha e dos pontos a renda faz jus ao nome, pois o resultado é mesmo uma singeleza. Para dona Marinita, a mais ilustre representante do bico singeleza, este oficio é assim percebido: “ a renda é a graça da minha vida. Esqueço do tempo. A gente vai fazendo com vontade que aumente e não pode tirar a vista. Brincou com a verdade erra, perde o ponto. Ai, entroncha tudo.” Dona Marinita morreu em 2006.

 

Fonte: Mapeamento Cultural, Cidades Históricas – Marechal Deodoro, Penedo e Piranhas, Caminhos turísticos de Alagoas. Alagoas , 2009, páginas 32 e 33.

 
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