Estado de Alagoas

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FILÉ

Maceió / Marechal Deodoro

Filé          

Foto: Jonathan Lins

          

          O pedido de Registro do bordado Filé foi encaminhado à Secretaria de Estado da Cultura em 04 de Julho de 2011, por meio de solicitação feita e assinada por sete diferentes Cooperativas e Associações de bordadeiras do Estado de Alagoas. O pedido segue endossado pelo SEBRAE e pela Universidade Federal de Alagoas e estas, por meio de termo de cooperação técnica, dedicaram-se a complementar o pedido por meio da produção de estudo/dossiê, atendendo ao artigo 4º da Lei nº 7.285 de 30 de novembro de 2011, que destaca a importância da produção e sistematização de conhecimentos e documentação sobre o bem cultural a ser Registrado.

          O estudo apresentado foi elaborado pelo Laboratório da Cidade e do Contemporâneo (LACC), núcleo de pesquisa do Instituto de Ciências Sociais (ICS), coordenado pelo antropólogo e pesquisador Bruno César Cavalcante e reúne a documentação acumulada sobre o processo de produção e comercialização do bordado filé e suas formas de manifestação no território alagoano, em especial na área compreendida entre as duas lagoas Mundaú e Manguaba, núcleo central de produção do referido bem. Compõem ainda o estudo, dados históricos e proposições para a salvaguarda do bem.

          O Filé é uma das marcas do artesanato de Alagoas e tipicamente uma manifestação do complexo estuarino Mundaú-Manguaba, e os maiores núcleos de produção estão localizados nas cidades de Maceió – nos bairros do Pontal da Barra e Riacho Doce – e de Marechal Deodoro. Filé é uma corruptela do francês , filet, rede, numa clara alusão ao ofício da pesca com redes.

          A origem do filé é desconhecida, mas o processo de feitura não deixa dúvida de que surgiu a partir da rede de pesca. Também não se sabe quando chegou a Alagoas, vindo do bojo das múltiplas influências européias assimiladas pela sociedade brasileira nos primórdios de sua formação. Certamente, pela contingência histórica, foram mulheres portuguesas as primeiras a transmitirem os conhecimentos de além-mar. Ainda hoje, algumas comunidades lusitanas mais tradicionais conservam a prática do filé, embora já se perceba certo distanciamento entre os padrões do produto lá e os desse lado do Atlântico.

          O filé consiste num trabalho de tecelagem manual disposto sobre uma base em rede. A primeira etapa do trabalho consiste na preparação dessa rede, ou grade, com linha resistente utilizada em agulha de jenipaparana, árvore da família das lecitidácias e hoje escassa na região.  A agulha é igual àquela utilizada para a confecção da rede de pescar, embora menor e mais fina. A dimensão da malha é definida pelo molde, palheta de bambu bem polida. Depois de pronta, a rede é logo engomada para facilitar o trabalho e, em seguida, esticada no tear.

          A filezeira, com uma agulha de metal comum e grossa, enche a rede com bordados de linha sedosa em fio duplo. O preenchimento é feito com cuidado para não sujar a peça, que , quando pronta, é passada pelo avesso e com ferro quente.

          As rendas mais antigas eram brancas. As poucas cores que se obtinha eram então por ação de corantes naturais de plantas da região. Depois chegaram as linhas coloridas e hoje o filé e confeccionado em toda a gama de cores e de suas combinações.

          Alguns pontos são: matame, jasmim,bom-gosto, tecido, olho-de-pombo, barafunda, dente-de-cão, três Marias, besouro, rosa, girassol, quadrado aberto, aranha. Com esses pontos, as artesãs fazem toalhas de mesa de todos os tamanhos. Fazem também colchas, caminhos de mesa, bicos para toalhas, xales, panos de bandeja, jogos americanos, almofadas e bolsas. Cortinas e outras peças mais difíceis de serem comercializadas, as filezeiras só produzem sob encomenda.

          Ao contrário de outros tipos de rendas, como a de bilros e irlandesa, o filé não depende do risco ou debuxo para ser tecido. O preenchimento da rede é feito de memória, com os pontos comuns à comunidade. A importância do caderno de risco é a preservação do file tradicional nos momentos de crse na atividade, quer por falta de compradores, quer por interferência desses compradores no padrão das filezeiras.

 

 

Fonte: Mapeamento Cultural, Cidades Históricas – Marechal Deodoro, Penedo e Piranhas, Caminhos turísticos de Alagoas. Alagoas , 2009, páginas 23 e 24.

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