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04/09/2019 - 13h18m

Roda de conversa com o rapper GOG coloca em evidência a juventude negra e a realidade da periferia

Movimento artístico tem sido válvula de escape para muitas crianças e jovens atendidos pelo programa Vida Nova nas Grotas

Roda de conversa com o rapper GOG coloca em evidência a juventude negra e a realidade da periferia

Mostra Alagoana de Cultura Hip Hop. Foto: Felipe Brasil

Texto de Dayris Carvalho

“O rap salvou minha vida”, declara Júnior Batista, um jovem MC da comunidade do Grutão - localizada entre os bairros Gruta de Lourdes e Murilópolis -, em Maceió, que conseguiu sair de uma vida violenta e de dependência química através da arte da periferia: o hip hop. O movimento artístico tem sido a válvula de escape para muitas crianças e jovens de comunidades carentes de Alagoas, ensinando valores e mantendo viva a cultura de um povo.

 

Rap, grafite e break dance são algumas das vertentes do hip hop, com particularidades próprias, mas todas unidas em uma única ideologia: a transformação. “É sobre como podemos mudar as pessoas, como a nossa voz pode fazer uma crítica social na comunidade em que vivemos e sermos ouvidos. O hip hop é a cultura da periferia, é a nossa força”, conta Nando Rosendo, professor de hip hop na oficina do Vida Nova Nas Grotas, programa do Governo do Estado em parceria com a ONU-Habitat. 

 

O programa Vida Nova Nas Grotas tem transformado não somente a mobilidade urbana das grotas de Maceió, como também tem oferecido ações de cultura, de saúde e de cidadania para os moradores. As oficinas são oferecidas pelo projeto Cultura nas Grotas, da Secretaria de Estado da Cultura (Secult), e reacendem a identidade cultural dos participantes, ensinando os princípios e os significados do Hip Hop.

 

“Foi através das oficinas que a minha vida mudou”, conta Lucas Gomes, um dos jovens do projeto. “Meu estilo de vida, a convivência com as pessoas, minha maturidade, por exemplo, não são mais os mesmos. O rap sempre esteve comigo, porque faz parte da comunidade, mas saber que eu podia fazer algo através dele foi o que me fez enxergar o mundo de outra maneira”, afirma.

 

Através das oficinas, os talentos afloram e o desenvolvimento dos jovens como cidadãos também. Em novembro de 2018, o grupo formado na oficina, o FDG Mc’s – Família do Grutão, lançou o primeiro videoclipe com a canção “FDG é lugar”. Os MCs lançaram seu segundo videoclipe no início de agosto.

 

Nando Rosendo, também conhecido como MC Tribo, revela que uma das primeiras dificuldades foi mudar a percepção negativa da comunidade sobre o rap, sobre a arte de rua como um todo. “Depois disso, os alunos começaram a frequentar as aulas. Hoje já é possível notar a mudança deles. E tudo porque tiveram acesso à educação, à cultura e à arte”, destaca o professor.

 

De acordo com Rosendo, o importante para o movimento é que ele comece a ocupar lugares considerados “elitizados”, para que, desta maneira, a percepção sobre a arte de rua seja transformada e não mais vista de forma pejorativa. É por isso que o coletivo Noiz Que Faz tem realizado parcerias com diversos lugares que não são típicos do hip hop, como o Quintal Cultural e alguns teatros de Alagoas.

 

Um exemplo é a 3ª Mostra Alagoana de Cultura Hip Hop, que aconteceu no Teatro de Arena Sérgio Cardoso, integrando a programação artística cultural em comemoração aos 47 anos do anexo ao palco oficial do Estado, o Teatro Deodoro.

 

A Mostra teve apresentações de break dance, batalha de rimas e shows de rap, além de realizar a roda de conversa “O rap é a voz do movimento”. “Às vezes me considero incendiária e outras vezes, bombeira”, declarou a MC alagoana Tatá Ribeiro sobre a sua música. “Entendo o movimento não como uma busca por ascensão, e sim pela manifestação do poder da nossa voz ao quebrar preconceitos ou denunciar as coisas erradas que acontecem na nossa sociedade”, afirmou.

 

Além da utilização da arte de rua como instrumento para transformação pessoal e social, também foram abordados assuntos como o tratamento igualitário com mulheres, LGBT e pessoas brancas no rap.

 

"Acredito que mesmo que alguém não seja desta cultura, de alguma maneira acabe inserido nela; isso deve ser deixado claro. Não adianta ficar excluindo ou apontando apropriações”, comentou o MC Tripa. “Isso aqui é pra acabar com a opressão. Não é porque alguém não pertence a uma causa que não pode lutar por ela. Voz é voz, independentemente de qualquer coisa”, completou.

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