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10/11/2017 - 18h35m

“Ofereçam-nos coisas de qualidade, o público é carente disso”, diz Clarisse Abujamra

Em entrevista exclusiva, veterana falou sobre cinema, criticou o que fazem com a música brasileira e adiantou projetos de trabalho

“Ofereçam-nos coisas de qualidade, o público é carente disso”, diz Clarisse Abujamra

Clarisse Abujamra em entrevista exclusiva ao Circuito Penedo de Cinema (Foto – Paulo Accioly)

Texto de Deriky Pereira

Clarisse Abujamra chegou a Alagoas na última quinta-feira (8). Desembarcando pela primeira vez no Estado, logo foi convocada para uma breve entrevista numa emissora de TV local e avisou que estaria no Circuito Penedo de Cinema, para um bate-papo com o público sobre o premiado filme Como Nossos Pais, exibido na abertura do evento. Antes de chegar na cidade ribeirinha, porém, fez um breve passeio – dentro do carro mesmo – pela orla de Maceió – uma orla marítima linda, ela nos conta – e seguiu viagem para Penedo.

Antes do bate-papo com o público, a atriz conversou com a equipe do Circuito Penedo de Cinema e falou sobre diversos assuntos: da volta ao cinema, da parceria com a diretora Laís Bodanzky, da sua personagem – que, coincidentemente, tem o mesmo nome. Elogiou a realização do evento, criticou a atual situação da música brasileira e adiantou seu mais novo projeto profissional: a novela As Aventuras de Poliana, que estreia no SBT em 2018, além de um projeto de seriado com “mulheres da minha idade”, como ela diz.

Então, vamos conferir?

Ascom Circuito – Clarisse, em Como Nossos Pais, você retoma a parceria com a diretora Laís Bodanzky – elas trabalharam juntas em 2007 no premiado Chega de Saudade. Como surgiu a proposta para interpretar essa personagem e como é voltar ao cinema com esse papel?

Clarisse Abujamra – Ah, voltar ao cinema é sempre bom, fazer cinema é sempre bom e com a Lais é um prazer dobrado, acho ela uma diretora maravilhosa. Eu “caí” nesse filme e eu vou explicar, você vai entender: não era eu a atriz pra fazê-lo, mas ela me ligou, me chamou pra um café na Vila Madalena, me contou o que era o filme e ainda disse: por coincidência, de verdade, a personagem tem o seu nome. Aí, no dia seguinte, me entregaram o texto e no outro dia eu tava no set rodando. Foi assim, uma surpresa, como se fosse um presente que eu fui desembrulhando cena por cena.

Ascom Circuito – A sua personagem viveu muitas coisas. Um casamento que não deu muito certo, um segredo guardado por muitos anos, tudo isso numa época diferente da que vivemos hoje. E, ao mesmo tempo, ela demonstra muita força… Como você avalia a sua personagem?

Clarisse Abujamra – Olha, nós fizemos vários debates depois da projeção do filme, então eu lhe digo que a minha personagem foi uma mulher transgressora na sua época. Tanto como agora, que as mulheres estão lutando pelo seu espaço e numa outra geração que difere da minha filha no filme, lindamente feita pela Maria Ribeiro e ela é uma mulher fortíssima e a Laís [diretora] sempre brinca que eu tô defendendo a personagem, mas eu acho que o filme todo é assim: agora é a hora da verdade, vamos abrir o jogo. A Rosa (Maria Ribeiro) encara o relacionamento com o marido, a mãe que faz um depoimento daqueles e eu acredito que ela, a minha personagem, tentou poupar, no que diz respeito à saúde dela, poupar a filha o máximo que pôde. E quanto ao pai, bem, tô indo embora, agora é a hora da verdade. Deve ser uma coisa que ela tinha entalada na garganta dela, nunca teve coragem pra abrir o jogo e na hora da verdade, ela abriu.

Ascom Circuito – Essa força, inclusive, acredito que também foi vista ou sentida por quem assistia ao filme – eu, em especial, notei – pela Rosa, personagem da Maria Ribeiro que, depois de quase 40 anos, vê a sua vida virar de cabeça pra baixo. Como foi trabalhar com ela, conviver com essa filha, nessa situação?

Clarisse Abujamra – A Maria é uma atriz generosíssima, muito generosa, muito bom trabalhar com ela. Ela me acolheu com um imenso carinho, levando em consideração o fato de eu entrar de um dia pro outro, toda equipe trabalhando e, de repente, eu chego. Mas ela é ótima. Se tiver que improvisar, ela improvisa. Chega cedo, bate texto, é uma profissional.

Ascom Circuito – Muita gente prefere a mentira (no lugar da verdade) e nem se dá conta disso. Essa frase da sua personagem chamou bastante a minha atenção. Vamos falar um pouco sobre a importância da verdade nas relações familiares.

Clarisse Abujamra – Eu acho fundamental, pois sem a verdade, vai chegar uma hora que ela vai aparecer. Então vai depender do teu know-how de vida pra escolher o momento, mas que ela vai aparecer, ela vai. As consequências disso, talvez, se dêem pelo tempo que você levou pra dizê-la em todos os sentidos, de tudo, eu acho que de toda e qualquer relação, mais cedo ou mais tarde, você vai ter que encarar.

Ascom Circuito – Então, seria a mentira uma espécie de atenuante da verdade em casos como o da sua personagem, mesmo ela tendo guardado isso por quase 40 anos?

Clarisse Abujamra – Ah, eu acho que sim, mas ela também tem vida curta e uma hora vai estourar. Ou porque você não aguenta ou porque o entorno provocou aquilo.

Ascom Circuito – Essa personagem te rendeu um prêmio de atriz coadjuvante durante o Festival de Cinema de Gramado – durante a entrevista, Clarisse também revelou que também foi premiada no Festival de Vitória, no Espírito Santo; o filme também se sagrou vencedor. Podemos dizer ou considerar que você pretende fazer mais cinema daqui pra frente?

Clarisse Abujamra – Olha, eu vou te contar uma coisa, acho que pouca gente sabe disso. Eu fiz um primeiro filme há mais ou menos 20 anos, um filme maravilhoso com a Betty Faria e etc. Quando o diretor me chamou, eu tinha pavor de fazer cinema, não queria, mas na época meu companheiro me incentivou, eu fui e foi maravilhoso. E ganhei um prêmio Governador de Estado de melhor atriz. Quase caí pra trás, pensando: nossa que legal fazer cinema, que bom (risos). Eu fiquei muito feliz com tudo, um novo ambiente de trabalho que eu desconhecia, falei: agora eu vou fazer cinema. Vinte anos depois, eu fui chamada pra fazer outro. Vinte anos! Quando eu terminei aquele, saí feliz achando que tinha entrado pro mundo do cinema, mas levei 20 anos pra outro convite, que foi o Chega de Saudade (2007) e… Eu digo isso não pelo meu umbigo, pelo amor de Deus, mas por uma coincidência da qualidade do meu trabalho com a Laís, ganhei prêmios em Paris, Colômbia, São Paulo com esse filme e, por isso, digo isso com muito orgulho, não pelo prêmio em si, mas pelo casamento profissional. O prazer de se ter uma diretora que te propicia isso. E depois do Chega de Saudade, eu tenho feito mais cinema, esporadicamente, mas tenho feito sim.

Ascom Circuito – O que os escritores, diretores, produtores devem fazer para contar com Clarisse em mais filmes?

Clarisse Abujamra – Não é só no Brasil não, mas no mundo inteiro, as mulheres estão reclamando que, às mulheres da minha idade, os personagens vão ficando bem escassos. Mesmo no teatro, onde é mais simples por não tem essa obrigatoriedade da idade, do visual, existe uma precariedade. E quando acontece de você ter uma Clarice como a do filme é uma maravilha, são raros os personagens bons pra mulheres mais velhas.

Ascom Circuito – Você já fez diversas novelas, já esteve no teatro, agora em destaque nas telonas. Você tem alguma preferência por algum desses ou cada um tem uma espécie de encanto diferenciado?

Clarisse Abujamra – Bom, eu gosto de interpretar. Cada veículo pede um tipo de trabalho, mas o que eu acho é o seguinte: se eu sei alguma coisa sobre a profissão hoje, eu devo única e exclusivamente ao teatro. Lá não tem montagem, você não tá sustentada no close, na beleza ou não, enfim, você tem que ter voz, articulação, ou seja, nu e cru. Apesar de ter gerações que só fizeram cinema, televisão, não sei como eles repercutem no palco, mas no que lhes foi dado fazer, eles são maravilhosos.

Ascom Circuito – Por falar em novelas, você está com algum trabalho para a TV daqui pra frente?

Clarisse Abujamra – Tô com um contrato, para começar uma novela no SBT, As Aventuras de Poliana. As gravações já começaram, mas eu devo iniciar as gravações no mês que vem.

Ascom Circuito – Pode adiantar um pouco sobre a sua personagem nesse projeto?

Clarisse Abujamra – Ela é dona de uma galeria de arte, uma mulher de posses e etc. Pelo que percebi, eu li a sinopse, tem a Poliana, que é uma menina e ela vai ter uma ligação, coisa de novela, é difícil a gente dizer porque eu nem comecei ainda, mas a sinopse é isso. A personagem é uma mulher razoavelmente fria, tem dois filhos e mais apego por um, aquela relação com as noras… Uma mulher difícil, mas uma mulher culta.

Ascom Circuito – Esse projeto, então, marca a sua volta ao SBT, não é? Como é trabalhar na emissora?

Clarisse Abujamra – Ah, eu fiz muita coisa no SBT. Eu adoro trabalhar lá! O SBT, entre os atores, a gente fala que é a mesma coisa de ir pra casa. Que se eu quiser, exemplo, eu nunca quis falar com o senhor Sílvio Santos (risos), mas querendo falar com qualquer pessoa de qualquer setor, é só chegar assim e bater à porta. É todo mundo junto, é muito legal, um entrosamento maravilhoso. Isso é raro!

Ascom Circuito – A gente veio de Que Horas Ela Volta?, três personagens femininos incríveis. Acquarius com a Sônia Braga, muito bem no papel. Aí vem Como Nossos Pais, com o seu papel e o da Maria Ribeiro, também, incríveis. Lais e Ana Muylaert, diretoras muito boas. Como você enxerga tudo isso, porque a gente vê que o cinema é muito masculino, a coisa começou a revolucionar, como você enxerga isso?

Clarisse Abujamra – Acho que não tem volta e que está mudando sim porque as mulheres são desestimuladas demais. E acho que agora é assim: você pode tentar me desestimular, mas não vai conseguir. Quando saiu a discussão que o filme seria escolhido pra representar no Oscar, sendo que o Bingo ganhou, a gente vibrou tanto quanto. A Lais contou o processo e eu quase caí pra trás. Todo o processo de captação, as pessoas que passaram, eram todas homens. Até ele ser julgado por seis homens e uma mulher. E a outra coisa, tá na hora de a mulher negra ser assumir o lugar dela no cinema, no teatro. Eu tô tentando agora escrever um roteiro e eu faço questão, somos em oito mulheres, falei: vai ser meio a meio, entre negras e brancas, sabe? Agora, tem uma coisa, pra começar: vamo parar com essa história, sabe? O que a gente quer é que tenha qualidade. E que assim seja. Eu odeio rótulo, somos seres humanos! Somos pessoas, entendeu? Então, pra mim, já o fato de sair dando rótulo me irrita profundamente. E você vê esse negócio da idade, Meryl Streep, Susan Sarandon, Nicole Kidman, estão todas produzindo seus seriados. E eu tô escrevendo um pra mulheres da minha idade porque se eu for esperar não tem. Não sei se eu vou conseguir realizar, mas eu tô fazendo isso.

Ascom Circuito – O filme Como Nossos Pais foi exibido para o público do Circuito Penedo de Cinema na última segunda-feira. Sessão lotada. Nesta sexta, você vai participar de um bate-papo com o pessoal que vem diariamente aqui na nossa Sala de Exibições. É um cinema de graça, na Praça, para todos os públicos e todos os gostos. Como você avalia um evento como o Circuito?

Clarisse Abujamra – Eu acho fundamental. Toda e qualquer manifestação cultural, quando você pode oferecer isso ao público e contando que o público é carente, pelo amor de Deus, nos ofereçam coisas de qualidade. Eu tenho sérios problemas com o que tão fazendo com a música, nossa, acho lamentável e aí, dizem que o povo gosta, mentira! Dê ao público coisa melhor, que ele vai aprender. Eu acho que o que a gente precisa são eventos como esse, trabalhos de qualidade, com filmes escolhidos, é fundamental. Agora fazer qualquer outra participação sem primar por essa questão da qualidade, você prestará um desserviço.

Ascom Circuito – Você acha que tem existido um movimento no Brasil para a realização de eventos como esse?

Clarisse Abujamra – Não, acho muito fechado. Mas não precisa esperar um festival. Isso deveria existir e mesmo pra amadurecer. Por exemplo, eu faço debate de todo espetáculo, workshop de interpretação, aí você vai e o cara diz: vamo fazer uma pecinha. Então eu digo: não faz, já começa daí. Aí, você chega e a cultura local nunca é apoiada pelas pessoas que vivem na cidade, mas quando vem de fora, vai todo mundo. Vamo abrir esse debate, vamo trazer. Acho que um entre mil grandes problemas é a formação de público no Brasil e aí a gente vai voltar numa coisa que é o elementar do existir, que é a educação.

Ascom Circuito – É a sua primeira vez em Alagoas? O que tem achado de Penedo?

Clarisse Abujamra – Sim, a primeira vez. Mas, Alagoas, bem, eu vim direto aqui pra Penedo. O senhor que estava nos conduzindo, uma simpatia, nos levou numa orla marítima linda em Maceió. E depois a estrada foi maravilhoso, aquela cocada que eles vendem. A cocada? Eu tenho paixão por jaca, falei para o carro já!

Ascom Circuito – E o que você pretende levar de lembrança da nossa terra?

Clarisse Abujamra – Cocada (risos). Eu adoro. O Ninho [Moraes] perguntou a mesma coisa e eu falei: cocada. E ele disse: vamos mais cedo porque você vai parar em todos os pontos (risos). Isso é maravilhoso, é lindo!

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