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08/03/2016 - 12h40m

Artesão transforma madeira em obra de arte no Agreste de Alagoas

Mestre Antônio de Dedé encanta com suas belas e coloridas peças

Artesão transforma madeira em obra de arte no Agreste de Alagoas

Antônio de Dedé usa elementos encontrados na região para firmar sua arte. Foto: André Palmeira

Texto de Pedro Mesquita

No local em que viveu por muito tempo Hermeto Pascoal, artista multinstrumentista ícone alagoano e mundial, também mora uma figura de grande importância para a cultura local. A cidade é Lagoa da Canoa, no Agreste do Estado, o artista Antônio Alves dos Santos, conhecido como “Antônio de Dedé”, um artesão que trabalha com a transformação da madeira e atribui características humanas as suas peças.

 Como o multiinstrumentista, Antônio de Dedé usa elementos encontrados na região para firmar sua arte. Apesar do músico não ter frequentado a roça, consequência do albinismo e da necessidade de proteção contra os raios solares, aproveitou o tempo livre para construir instrumentos. Já o artesão conciliava o trabalho braçal, também definido por ele como artesanato, com a produção de esculturas em madeira no momento de descanso.

“É uma tradição da gente aqui, cada um tem um dom que Deus dá. Nunca podemos perder a fé, nem a esperança. Eu trabalhei na agricultura por muitos anos, meu pai me criou na agricultura. Não aprendi a ler por causa disso, comecei aos oitos anos, porque era um serviço braçal e não tinha mais ninguém para fazer”, relata o artesão.

O canoense diz que foi seu pai quem o levou para o mundo das artes. O patriarca da família desenvolvia diversas atividades além da agricultura. Se estivesse disponível, exercia a função de pedreiro, marceneiro e carpinteiro.

Ele logo aprendeu os ofícios e, desde os oito anos de idade, fabricava peão, carro, avião, todos os brinquedos que quisesse. Quando enjoava ou simplesmente tinha uma sobra, vendia para os vizinhos.

Profissão: artesão

Após o casamento, Antônio de Dedé continuou a trabalhar com agricultura. Era desta forma que sustentava a esposa e os nove filhos. Apesar disso, a produção das peças nunca parou, pelo contrário, sempre arrumou o tempo para se dedicar às novas criações. Ainda que não tivesse oportunidade de comercialização, tinha uma diversidade de animais e seres humanos em madeira.

“Comecei a fazer uns bonecos maiores, mais formais. Eu não vendia nada. Não tinha tempo de vender, ficava na roça. Só fazia as peças para não esquecer a tradição. Ia trabalhar e via um pau, trazia, esculpia um pedaço. Voltava da roça às 5h da tarde e trabalhava até terminar, pintava e colocava em um cesto que eu tinha em casa”, conta.

Tudo mudou na vida do artesão quando uma pessoa de Maceió, atraída pelas histórias do trabalho dele, foi a sua procura para comprar algumas peças. Antônio de Dedé mostrou esculturas prontas e acabou vendendo tudo. Depois daquele dia, decidiu ocupar metade da semana com o trabalho artesanal.

“Eu trabalho com essas esculturas assim, faço ser humano, faço feminino, masculino, todas as peças são importantes. De tudo faço um pouco, para não esquecer meu trabalho. Quando eu faço uma mulher bem feitinha, acho bonito se ficar parecida com o ser humano. Eu fico olhando no olho, para ver se me agrada”, aponta.

O período trouxe outra transformação na vida do artesão, mas o acontecimento não foi positivo. A esposa teve dois acidentes vasculares cerebrais (AVCs) em seis meses. Ela não resistiu à doença e faleceu, deixando o marido com os filhos para criar. “Nós fizemos tudo por ela, depois do hospital trouxemos para casa, deixávamos na varanda para tomar um ar, mas os sintomas só pioraram e ela não aguentou”, completa. 

Patrimônio Vivo - Mesmo enfrentando grandes dificuldades, o senhor ganhou uma recompensa em 2015. Aos 62 anos de idade recebeu o título de Patrimônio Vivo de Alagoas. Ele comemora o resultado e acredita que o reconhecimento chegou no momento adequado. 

“Tudo mudou, meu ponto de vista, meu olhar, meu sentido, meu pensar. A gente nunca voa alto, ninguém enrica com essa habilidade, é um dom que Deus dá pra gente sobreviver. Agradeço meu trabalho e o patrimônio vivo que veio pelo trabalho. Se não fosse meu trabalho, não tinha vindo. Deus me deu esse reconhecimento e ajuda para descansar, veio na hora certa”, disse o mestre artesão.

De acordo com o texto da Secretaria de Estado da Cultura (Secult), o Patrimônio Vivo deve “repassar às novas gerações os saberes relacionados a danças e folguedos, literatura oral e/ou escrita, gastronomia, música, teatro, artesanato, dentre outras práticas da cultura popular que vivenciam”.  Esta é uma das condições que o artesão segue à risca, os filhos sabem fazer os tão cobiçados bonecos, perpetuando uma arte que encanta até os olhares mais críticos.

Semana do Artesão 

Para valorizar, fomentar e reconhecer esse trabalho, o Governo de Alagoas vai realizar, de 17 a 22 de março, no Memorial à República, uma semana de atividades alusivas ao Dia do Artesão.

Durante a semana, a população poderá visitar a exposição das peças com as principais tipologias do artesanato alagoano, no hall principal do Memorial, em Jaraguá, das 9h às 20h. Ainda nas atividades, serão realizadas palestras, oficinas criativas e a comercialização do artesanato no caminhão loja da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico e Turismo (Sedetur).

 

Os visitantes terão, ainda, a estrutura de uma praça com os foodtrucks, no estacionamento da Praça Marcílio Dias. A programação completa pode ser conferida no site da Sedetur  sedetur.al.gov.br.​

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