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22/06/2016 - 12h15m

Comunidade resiste ao tempo, ao racismo e mantém viva tradição em Alagoas

Agência Alagoas conta em série de reportagem como vive comunidade quilombola no município de Traipu

Comunidade resiste ao tempo, ao racismo e mantém viva tradição em Alagoas

Dona Duda é bisneta de escravos e tradicional moradora do povoado; na sequência de imagens, o acesso à comunidade, em Traipu; já Maria da Glória supera dificuldades financeiras do lugar com a venda de castanha (Paulo Rios)

Texto de Paula Nunes

A Agência Alagoas traz à baila a partir desta reportagem uma série de três matérias que abordará um pouco de como vive uma das comunidades remanescentes de quilombolas no Estado.

Como se sabe, Alagoas se destaca por abrigar e ser o berço da resistência negra no Brasil, tendo como líder Zumbi dos Palmares. O principal dos quilombos está situado no município de União dos Palmares, mas essas comunidades não se limitam apenas a esta região, berço da liberdade negra.

Em vários quadrantes do Estado, é possível encontrar remanescentes destes povos que muito contribuíram – e muito contribuem – para enriquecer a cultura alagoana.

O foco desta reportagem será a comunidade quilombola Mumbaça, localizada no município de Traipu, cidade a 143 km de Maceió, na região Agreste.

 

 

Povoado abriga cerca de 400 famílias e já foi refúgio de escravos

 

 “O racismo é um estigma que ainda precisamos lutar contra diariamente”. A frase é de dona Maria José dos Santos, conhecida como Duda, de 60 anos, que, emocionada, garante sofrer com o preconceito, inclusive, dentro da comunidade onde vive há mais de 50 anos.

A aposentada é bisneta de escravos e considerada uma das moradoras mais tradicionais do povoado Mumbaça, comunidade remanescente de quilombo situada na zona rural do município de Traipu, interior de Alagoas, a 143 km de Maceió. A região abriga cerca de 400 famílias e já foi refúgio de escravos fugitivos ainda no século XVI.

 

 

O sustento da família de Duda vem do trabalho na roça e do artesanato. A bisneta de escravos produz diversos bordados diferentes e se orgulha porque aprendeu com sua mãe, quando tinha apenas dez anos de idade. Ela conta que sua vida sempre foi muito atrapalhada. Solteira, a dona de casa tem 11 filhos, dos quais dois morreram. “Nós ainda vivemos em uma situação miserável aqui. Alguns dos meus filhos precisaram tentar ganhar a vida em São Paulo, devido ao sofrimento e a falta de oportunidade na comunidade. Aqui não tem emprego, e se quiser sobreviver, precisa ir para a roça”, relata Duda.

A filha mais nova dela tem 16 anos e Duda revela sonhar com um futuro diferente para a caçula. “Pelo meu sofrimento, eu não quero que ela passe pelas mesmas coisas que eu”, diz a bisneta de escravos.

Duda destaca a discriminação que precisou vivenciar durante toda sua vida e que ainda sofre atualmente. Segundo ela, muitos irmãos quilombolas a intitulam como “urubu preta”. “Tem uma mulher que quando me encontra e está chateada, grita: ‘Negro mais preto pra mim é o cão’. Eu fico triste, mas quando estou de bom humor, deixo pra lá e, quando não, respondo, porque eu tenho orgulho da minha cor e da minha descendência”, conta.

”Sempre sofri com isso, desde muito nova. As pessoas não conseguem me aceitar porque sou negra. Sou orgulhosa pela minha cor”, completa dona Duda.

 

Pobreza assusta comunidade, revela descendente

Assim como a aposentada, a dona de casa Maria da Glória dos Santos, de 46 anos, também define a atual situação da comunidade como de 'extrema miséria'. Moradora do povoado desde que nasceu e mãe de nove filhos, ela garante que absolutamente toda a população do quilombo Mumbaça vive de forma péssima, lutando diariamente para ter acesso aos serviços básicos de saúde, educação e moradia. O sustento da família vem do artesanato, trabalho na roça e com a venda da castanha, natural e queimada.

 

 

Maria conta que, às vezes, precisa escolher quantas refeições a família, composta por oito pessoas, vai realizar durante o dia. Emocionada, a dona de casa garante que é triste ter que ver seus filhos e netos com fome. “É difícil. Tem dia que só temos uma refeição e eu preciso escolher se eles vão comer quando acordam ou quando vão dormir. O dinheiro que nós recebemos dos programas federais é gasto totalmente com remédios, porque as crianças adoecem com frequência. Precisamos de mais atenção. Nós somos negros e seres humanos também, muitas vezes as pessoas esquecem disso”, ressalta a dona de casa.

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